Resenha: A Cor Púrpura

24/04/2020


Mais uma vez me aventurei em uma leitura difícil. Não pela escrita da autora ou algo assim, mas pela história tão triste e pesada que Alice Walker apresenta aos leitores com A Cor Púrpura. Neste livro escrito em formas de cartas ao longo de 40 (ou mais) anos conhecemos Celie, uma jovem negra que vive em uma pequena cidade em Georgia. Ela cresceu em uma casa onde viu por anos e anos sua mãe muito doente e teve que cuidar de seus irmãos mais novos, além de ser constantemente abusada por seu padrasto (psicologicamente, fisicamente e sexualmente). Celie foi obrigada a deixar a escola, quando ficou grávida teve seus filhos tomados de si, e aos 19 anos foi obrigada a se casar com um viúvo que era uma copia de seu padrasto. Além de perder os filhos Celie perdeu também a irmã, por quem sempre manteve a esperança de ver novamente.

Esse é um daqueles livros que nos emociona pela sua história, por todo o sofrimento de Celie, que mesmo vivendo miseravelmente ela ainda tem esperança de que as coisas podem melhorar. Ela não demonstra essa esperança ao leitor de forma clara, pois muitas vezes ela até reproduz coisas que as pessoas dizem sobre ela: feia, pobre, preta. Entretanto, além do livro emocionar pela história de sua protagonista ela mostra as leitoras (neste caso vou falar como uma leitora branca) todas as consequências que a escravidão deixou na vida das pessoas negras e seus descendentes. Na narrativa vemos situações em que uma mulher é negra é presa por ter desrespeitado uma branca rica, assim como a crença de pessoas brancas que acham que os negros devem fazer tudo por eles, ou até mesmo que é inadmissível um homem negro ter um carro e sair passeando com ele pela rua e pior ainda a ideia de que uma mulher negra artista só é entretenimento.

"Você tem que brigar. Você tem que brigar."
Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.

Algumas cartas foram escritas por uma segunda personagem (que eu não vou citar para não dar spoilers da obra) e ela se torna missionária na África, conhecendo uma parte da cultura africana e vivendo ali por muitos anos. Essa parte do livro nos trás uma boa reflexão sobre as mudanças que os brancos causaram na África desde a época da escravidão até o século XX (e provavelmente ainda hoje). O entendimento que essas pessoas tem de negros que vivem em outros países, o julgamento de sua cultura e preconceito por eles não se identificarem realmente com as crenças religiosas africanas.

Essa foi a primeira vez que li algo da Alice Walker e me surpreendi com a delicadeza da autora em nos mostrar uma história tão forte com uma escrita tão leve. A Cor Púrpura é fácil de ler e mesmo que você se sinta extremamente enojado com algumas situações que Celie sofre ainda assim ela sabe como deixar alguns detalhes nas entrelinhas, pois ela sabe que nós entendemos muito bem o que ela quis dizer.

É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou. 

A leitura de A Cor Púrpura faz parte da leitura coletiva do grupo Lendo Mulheres Negras. A foto é do meu amigo Alisson <3


Título: A Cor Púrpura (The Color Purple) • Autora: Alice Walker
Editora: José Olympio • Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson

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